Caminhando, ela procurava algo que não sabia descrever. Não era tecnicamente palpável, mas era possível sentir. Não era algo comestível, mas se digerido fosse, poderia até sentí-lo apertando e queimando em suas entranhas. Quem sabe não fosse algo real, no entanto, tinha certeza de uma coisa: era vivo.
Pisando em ovos, cansada de tanta automaticidade, analisava pela janela aquela vizinhança, sem grandes esperanças. As pessoas costumam fazer votos de força, mas no fundo sabemos que tudo se vai. De repente ouviu uma voz dura, porém terna, dizendo:
- E então? Para onde vai? Olhe para frente, de preferência encontre meus olhos. Suspire e diga que está vendo aquela porta que há tempos trancou.
- Porta? Que porta? - respondeu rapidamente, não pareceu impressionada.
- Eu sei que doeu, mas a vida é assim. Não entende? Não adianta se culpar pelo rumo da vida. Quem poderá saber o que há na curva do rio?
- Não entendo... Que porta?
- Ora, a porta que dá sentido a tudo! Que torna tudo mais intenso e real. A porta das circunstâncias, a porta dos sonhos mais profundos, a porta da vivacidade que gera brilho nos olhos. A porta que se tranca por dentro, tornando inacessível até a parte de fora. A porta do coração.
- Quem pensa que é, para me dizer como devo ou não me proteger?
- Quem pensas que és, para deixar a Razão caminhar sozinha? Ou pensas também, como tantas outras pessoas, que a Emoção é criminosa e irresponsável a ponto de escondê-la e me deixar só?
- De que adianta deixá-la solta por aí, se ninguém a respeita? De que adianta, se só a sua voz me valeu?
- Ninguém é sábio sozinho, menina. Precisa dela tanto quanto eu. Gostava de ti muito mais antes...
- Antes quando? Quando tola?
- Não. Quando era boba o suficiente para rir de si mesma. Quando era capaz sorrir sem motivos, ser intensa, fiel, amável e justa. Lembro-me da sua inocência. Cativava até o próprio Amor. Não impunha regras de aproximação e não havia jogos de orgulho consigo mesma. Apenas fluia e se soltava. Coisa que ninguém mais faz.
- Pensei que fosse normal se ferir e recuar para deixar sarar.
- Esse é o problema. Ficou normal demais. As pessoas vivem de imagem. Jamais passam para os outros quem são, o que pensam e o que querem de fato. Ocultam suas dores, seus amores. São frias. Manipulam o sentimento de quem tem, para que esses amem sozinhos. Pois os tais 'decepcionados' são incapazes de se entregar. Anseiam estar a frente de todas as situações, mecanizando o mundo e a eles mesmos. Tolos...
A garota, agora triste, compreendera o recado da Razão e se permitiu abrir a porta de todas as circunstâncias. Era como se o sol pudesse renascer no horário de sua despedida, deixando brilhar cada detalhe oculto e empoeirado do seu íntimo. Agora o mundo faz sentido.
Um passo, um ato, uma escolha. Uma entrada, uma saída, dois lados e uma face. Uma porta. Talvez fosse isso. Encontrou algo que estava lá dentro, a razão que alterava cada e qualquer coisa. Encontrou a Emoção, e não para por aí. Lá estava ela, atrás da porta, de joelhos e nítidamente entediada, pronta para sair... A Essência.
Nossa, não tenho palavras para dizer o quanto esse texto me atingiu. A voz parecisa falar comigo, eu só não sei se posso abrir porta de todas as circunstâncias. É como se minhas emoções estivessem em uma caixa, e eu ainda não conheci minha pandora.
ResponderExcluirA senhorita escreve muito bem, deveria postar com mais frequência, seus leitores agradecem :)
Sério, parbéns, você é talentosa.
agradeço muito! :)
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