Quando me dei conta, estava ali, presa em meio ao nada. Procurando a saída desse lugar, que não era mar, não era rio. Era água, era terra, era um mangue.
Pelos troncos das árvores vi as possibilidades e saídas. Em cinco ou dez passos estaria na terra. Em mais dois para qualquer outra direção, permaneceria na água e nesse ritmo, o raso poderia se tornar fundo e então, me afogaria. Permitiria-me eu, tal loucura?
A terra seria o caminho mais seguro, porém jamais seria o mais fácil. Permaneceria as minhas lutas pela minha estrutura, pelo meu ser, pelo que sou. Continuaria havendo as brigas, os maus dias, mas também haveria os abraços, o calor, o amor daqueles que andam comigo sobre ela. Essa é a vida.
A água me guiaria, me levaria, passando por tudo e por todos de maneira suave e despercebida. Havia tantas pessoas na água. Suas vidas eram fáceis, drásticas, porém medíocres. Gente tão fria. Para ficar na água, deveria afogar em mim o que sou, para renascer semelhante daqueles que nela habitam.
Minha essência berrava insistentemente em meus ouvidos, clamando por sabedoria e sensatez. Era fácil, mas não era certo. Como poderia eu, deixar de ser quem sou? Dar-me o luxo de ser alguém que desconheço? Como posso querer ser mais do que eu mesma? Não nasci para esse mundo.
Caminhei para a terra, até poder senti-la quente e áspera em meus dedos. Senti o vento beijar o meu rosto. Pude ver o sol. Estava tudo bem. A cada passo, deixava para trás o mangue e a impossibilidade de fazer parte dele. Não sou insensível, não sou fria. Sou quente, sou gente. Sou a terra firme. No final do dia, havia os passos da longa caminhada estampados pelo chão. Já podia ver o sorriso dos meus semelhantes. Estava em casa. Foi só uma fase, uma transição, um mangue. Tudo voltou ao normal.