sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Doce Lar

"... Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero."


Paredes pintadas, quadros molhados e retratos de algo que aconteceu. Lembranças marcadas, roupas jogadas, um telefone que se perdeu.
Bochechas rosadas, olhos cerrados. Alguém adormeceu. Ouço ruídos, passos e latidos. Acho que meu cachorro enlouqueceu. Abraços apertados, sorrisos forçados. Seu rosto já não vai de encontro ao meu.
A porta se abriu. Uma casa vazia, mas na memória percorria tudo aquilo que um dia a encheu. O vento passou e a porta bateu. Já não havia mais espelho, não havia mais reflexo. Apenas a lembrança da grande bonança, acompanhada dos almoços de domingo.
Parte de você entra no carro e vai embora, seus pedaços também não entendem porquê. Assim como toda ferida, a dor cessa uma hora, deixando sempre uma marca com você.
Se hora esteve comigo e agora em teu silêncio me abrigo, é porque algo aconteceu. São ideias mal faladas, atitudes impensadas. Uma resposta que não ocorreu.
Não é preciso vir comigo, pois nesta casa que habito, muita coisa aconteceu. Agora vou embora, pois há vida lá fora. Pode doer na hora, mas há muito para se ver. Antes de sair deixo um recado na porta: "Para entrar necessita de chave, para sair necessita coragem." A vida é mais que uma lembrança. É uma experiência.