sábado, 22 de outubro de 2011

Laço de Barbante

Nunca foi fácil, não é? Nunca foi tão verdade assim. Se há duas verdades, há duas pontas. Se há duas pontas, há um meio. Logo, tudo se interliga de um jeito.
Se dói lá, dói aqui também. O mundo sempre foi assim, escute isso. Não é apenas um conselho, é um fato.
Olho para um laço de cetim e penso nas pessoas. Demora-se um tempo para entender como atar um belo laço, no entanto, este se desfaz no primeiro descuido. E por mais lindo que fosse, se desfez. Porque no fundo, esse era o intuito. Fora feito para ser bonito e não para ser duradouro. Sempre soubemos disso, pois quando queremos amarrar algo, recorremos ao barbante e não ao cetim. O barbante não forma o laço mais bonito, mas é o mais forte e seguro.
Encontro respostas, porque busco-as. Medito nelas e as entendo. E todas as vezes que minha compreensão gera dor, desato, desfaço e mudo de lugar. Como se fosse para mudar algo em mim, algo no mundo, algo em tudo. O comodismo me incomoda.
Retiro-me mais uma vez, tentando me convencer de que um dia algo me fará parar de cortar laços falsos de cetim e me firmar em laços de barbante.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Porta

Caminhando, ela procurava algo que não sabia descrever. Não era tecnicamente palpável, mas era possível sentir. Não era algo comestível, mas se digerido fosse, poderia até sentí-lo apertando e queimando em suas entranhas. Quem sabe não fosse algo real, no entanto, tinha certeza de uma coisa: era vivo.
Pisando em ovos, cansada de tanta automaticidade, analisava pela janela aquela vizinhança, sem grandes esperanças. As pessoas costumam fazer votos de força, mas no fundo sabemos que tudo se vai. De repente ouviu uma voz dura, porém terna, dizendo:
- E então? Para onde vai? Olhe para frente, de preferência encontre meus olhos. Suspire e diga que está vendo aquela porta que há tempos trancou.
- Porta? Que porta? - respondeu rapidamente, não pareceu impressionada.
- Eu sei que doeu, mas a vida é assim. Não entende? Não adianta se culpar pelo rumo da vida. Quem poderá saber o que há na curva do rio?
- Não entendo... Que porta?
- Ora, a porta que dá sentido a tudo! Que torna tudo mais intenso e real. A porta das circunstâncias, a porta dos sonhos mais profundos, a porta da vivacidade que gera brilho nos olhos. A porta que se tranca por dentro, tornando inacessível até a parte de fora. A porta do coração.
- Quem pensa que é, para me dizer como devo ou não me proteger?
- Quem pensas que és, para deixar a Razão caminhar sozinha? Ou pensas também, como tantas outras pessoas, que a Emoção é criminosa e irresponsável a ponto de escondê-la e me deixar só?
- De que adianta deixá-la solta por aí, se ninguém a respeita? De que adianta, se só a sua voz me valeu?
- Ninguém é sábio sozinho, menina. Precisa dela tanto quanto eu. Gostava de ti muito mais antes...
- Antes quando? Quando tola?
- Não. Quando era boba o suficiente para rir de si mesma. Quando era capaz sorrir sem motivos, ser intensa, fiel, amável e justa. Lembro-me da sua inocência. Cativava até o próprio Amor. Não impunha regras de aproximação e não havia jogos de orgulho consigo mesma. Apenas fluia e se soltava. Coisa que ninguém mais faz.
- Pensei que fosse normal se ferir e recuar para deixar sarar.
- Esse é o problema. Ficou normal demais. As pessoas vivem de imagem. Jamais passam para os outros quem são, o que pensam e o que querem de fato. Ocultam suas dores, seus amores. São frias. Manipulam o sentimento de quem tem, para que esses amem sozinhos. Pois os tais 'decepcionados' são incapazes de se entregar. Anseiam estar a frente de todas as situações, mecanizando o mundo e a eles mesmos. Tolos...
A garota, agora triste, compreendera o recado da Razão e se permitiu abrir a porta de todas as circunstâncias. Era como se o sol pudesse renascer no horário de sua despedida, deixando brilhar cada detalhe oculto e empoeirado do seu íntimo. Agora o mundo faz sentido.
Um passo, um ato, uma escolha. Uma entrada, uma saída, dois lados e uma face. Uma porta. Talvez fosse isso. Encontrou algo que estava lá dentro, a razão que alterava cada e qualquer coisa. Encontrou a Emoção, e não para por aí. Lá estava ela, atrás da porta, de joelhos e nítidamente entediada, pronta para sair... A Essência.

sábado, 9 de abril de 2011

Homens do Século XXI

Óh homens do século XXI, quem são vocês? Homens com ternos, engravatados? Hippies de rua, bandidos ou revoltados? Propagam a paz com um punhal na mão. Ora dizem sim, ora dizem não. Quem são vocês, homens da nova geração?
Falam alto como se clamassem atenção. Buscam viver a vida, pregando a liberdade de expressão. Liberdade esta, capaz de reprimir quem não anda conforme o seu padrão. Esvaziam suas mentes e contaminam seus corpos. Apagam suas mágoas com a doce embriaguez.
Andam em bandos, porque temem a solidão. Com noites passadas de dias vividos, e apenas lembranças de rostos desconhecidos. Estão indo embora, para onde vão agora? Não se sabe. Não há sentido e nem direção.
Não se entregam por inteiro, vivendo das metades, fugindo do certeiro. Estão com todo mundo, mas estão sozinhos.
Óh homens do século XXI, por quem vivem afinal? Antes de dormir, por que sentem esse vazio? Essa interminável luta por ninguém. Nômades por opção, quando vão colocar concreto nessa terra molhada? Nesse mundo há uma jornada, onde estão afinal, as suas pegadas?